sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Francisco
Apesar de gasto pelo relógio que teima em marcar as horas do tempo, que, diga-se de passagem, não existe, ele continua. Está velho, quase arrasta os pés na estrada de terra batida que o leva da sua casa ao campo que trabalhou, desde a idade de sete anos, por ordem e necessidade de seu pai. Todos os dias o visita. Agora é apenas um baldio, coberto por ervas e plantas espontâneas, a que se deu uso chamar daninhas só porque aparecem onde lhes apetece, sem responder a necessidades de quem é dono e senhor dos terrenos. Ainda assim, gosta de o visitar e lembrar o que tinha sido a sua vida de miúdo, rapaz, homem, homem marido, homem pai e homem avô. Ali, no campo agora baldio, tinha sentido pela primeira vez os lábios de Carolina. Haviam apenas passado doze anos desde que abrira os olhos pela primeira vez, para ver sua mãe com o peito descoberto a agradecer a Deus ter leite para o menino, uma vez que na sua ausência, nada mais haveria para o alimentar. Doze anos. Sentiu, porque recordou e a sua memória não permite apagamentos, a felicidade que sentira ao tocar os lábios daquela que acreditava vir a ser sua mulher. O correr das águas da ribeira que ladeava a sua aldeia, se é que se pode chamar aldeia a três dezenas de casas e uma igreja, veio a provar que a vida não é como se sonha, é como é. Já tinha vinte anos e o desgosto de sua mãe por não o ver casado estava prestes a acabar. Conhecera Maria. Tinha vindo, ela, de fora da aldeia para trabalhar no campo do senhor que era dono dele, a troco de quase morrer à fome, com dezoito anos de idade. Foi aí que os seus olhares se cruzaram pela primeira vez, no meio do calor quase insuportável, do pó dos cereais e das dores que o corpo tinha. Não se pode dizer, porque não é verdade, que foi o olhar que aliviou tudo. Foi antes o repetir do cuidado com que se tratavam, do sorriso de Maria, do corpo de mulher de Maria, dos desejos de ambos e da vontade que não se controla. Quando o trabalho ficou feito, por não serem precisos mais cuidados à seara e o senhor dono das terras ter satisfeitas as suas necessidades de mão-de-obra que não podia humanamente satisfazer sozinho, Maria preparava-se para voltar a casa de seu pai. Percebeu que não podia, quando acordou, três dias antes da partida, e a náusea se instalou sem motivo aparente. A noite em que se deixara levar pela luz da fogueira e pelo olhar de Francisco, tinha produzido mais que suor e prazer. António, baptizado com o nome de seu avô paterno, viria a nascer passados oito meses e meio, já devidamente casados seus pais, Francisco e Maria, como mandam as regras de honra e como mandou também o pai de Maria. Quase tudo o que se passara na vida de Francisco tinha acontecido no espaço entre a aldeia e o campo do senhor que era dono dele. De excepção servem as raras idas à cidade de Beja, para visitar seu irmão que por ali se tinha instalado, depois de começar a trabalhar na fábrica de cortiça que também era do senhor dono do campo. Não sentia necessidade de sair ou ver outras terras e gentes, para si, conhecia o mundo, e isso chegava. Tal como hoje, apoiado no cajado a olhar o campo, passara a vida a olhar as coisas todas. Primeiro Carolina, depois Maria, depois António, sempre trabalho e trabalho e trabalho, sorrisos, choros, vento, pássaros, até já não saber onde acabava ele próprio, Francisco, e começava o resto. Até ter a noção que existia e era tudo o que via, tudo o que fora, tudo o que sentira. De regresso a casa, onde Maria o espera para jantar e donde António e seus dois irmãos já saíram há mais de dez anos para tentar fazer vida na cidade grande, beija sua mulher na testa e diz sorrindo: “acho que enlouqueci, sinto-me dono de mim e de tudo quanto fiz.”
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
E DAÍ?
Daqui, tudo parece calmo
E daí?
Daqui, os tumultos calaram-se
Ávidos de respostas que não existem
E daí?
Daqui, aceitou-se o que se via
Apenas porque existe
Apenas porque se vê
E daí?
E daí?
Daqui, os tumultos calaram-se
Ávidos de respostas que não existem
E daí?
Daqui, aceitou-se o que se via
Apenas porque existe
Apenas porque se vê
E daí?
domingo, 29 de novembro de 2009
A coisa disse
A coisa chegou numa coisa que parecia um barco voador.
A porta da coisa tinha sido aberta com grande estrondo apenas uns segundos antes de a coisa se fazer ver.
A coisa que vinha da coisa que parecia um barco voador disse: “TENHO A RESPOSTA A TODAS AS VOSSAS DÚVIDAS, AS EXISTENCIAIS E AS OUTRAS”.
Nisto, desceu por uma coisa que parecia uma corda e dirigiu-se aos que observavam a coisa que parecia um barco voador, há mais de uma semana, sem que percebessem o que era.
Todos aguardavam o discurso, boquiabertos, a olhar a coisa. E foi então que a coisa disse: “GRHUNDFTIZPAR, PERCEBERAM?”
A porta da coisa tinha sido aberta com grande estrondo apenas uns segundos antes de a coisa se fazer ver.
A coisa que vinha da coisa que parecia um barco voador disse: “TENHO A RESPOSTA A TODAS AS VOSSAS DÚVIDAS, AS EXISTENCIAIS E AS OUTRAS”.
Nisto, desceu por uma coisa que parecia uma corda e dirigiu-se aos que observavam a coisa que parecia um barco voador, há mais de uma semana, sem que percebessem o que era.
Todos aguardavam o discurso, boquiabertos, a olhar a coisa. E foi então que a coisa disse: “GRHUNDFTIZPAR, PERCEBERAM?”
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Ganga
O rapaz de calças de ganga sujas de terra das sucessivas quedas, caminha, com a mochila cheia de livros com letras impressas que ainda não sabe perceber, em direcção à escola.
Sentado na carteira, ao lado de quem lá está, também sentado, ouve com a desatenção que o discurso merece, os sons repetitivos que jorram da personagem ao pé do quadro preto com o giz branco na mão. Preto no branco, tudo se mantinha em silêncio, nos símbolos imóveis apresentados com a verdade suposta que alguém construiu.
No intervalo, chamado assim porque depois se retomaria o processo e agora era tempo para a pausa, olhava a rapariga sentada em cima do muro baixo que dividia, inutilmente por falta de altura, dois espaços que eram o mesmo. Sonhava, a rapariga, ao olhar para o pátio, com o que estava a ver. Sonhava enquanto via.
O rapaz, menino, nesse momento foi o menino, ao ter a lucidez da queda que sucederia ao sonho da rapariga, mulher, correu na sua direcção para amparar a queda inevitável após o despertar.
Inútil movimento e desperdício de energia. A rapariga sujou, pela primeira vez, as suas calças.
sábado, 31 de outubro de 2009
Rio antigo
Sentado nas escadas cobertas de folhas caídas de vidas passadas
Senti o rio antigo vivo ao fundo da paisagem
Não era bem ao fundo, havia mais para lá do rio, em profundidade.
O resto são sobras fúteis.
Senti o rio antigo vivo ao fundo da paisagem
Não era bem ao fundo, havia mais para lá do rio, em profundidade.
O resto são sobras fúteis.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
um dois três. som. experiência.
O dai nasceu especial.
Conseguia ouvir-se tudo, até as plantas a crescer…
O desenho animado que imaginara apareceu-lhe, em carne e osso, quando saia de casa. Cara pequena, doce, a olhá-lo de frente entre um suspiro de gaivota e o passar do eléctrico.
Conseguia ouvir-se tudo, até as plantas a crescer…
O desenho animado que imaginara apareceu-lhe, em carne e osso, quando saia de casa. Cara pequena, doce, a olhá-lo de frente entre um suspiro de gaivota e o passar do eléctrico.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Há muito tempo
Já passava das três da manhã quando sentiu o muro de cimento que lhe ladeava o corpo todo. Não há fuga a isto, pensou.
Subitamente, um pouco por cima do estômago mas ainda abaixo dos pulmões, sentiu uma fresca angústia que nunca havia sentido.
Tudo mais confuso, cada vez pensava mais na prisão estúpida em que se encontrava, deixando o pânico e o desespero tomar conta de si.
Desistiu de pensar. Não foi uma decisão, foi uma imposição da sobrevivência.
Tudo o que lhe restava era o instinto, e esse mandava-o sentir o fresco que vinha de dentro.
Seguiu-a em direcção ao fundo onde todos somos iguais, e, com o corpo ainda preso, libertou-se como nunca tinha conseguido.
Subitamente, um pouco por cima do estômago mas ainda abaixo dos pulmões, sentiu uma fresca angústia que nunca havia sentido.
Tudo mais confuso, cada vez pensava mais na prisão estúpida em que se encontrava, deixando o pânico e o desespero tomar conta de si.
Desistiu de pensar. Não foi uma decisão, foi uma imposição da sobrevivência.
Tudo o que lhe restava era o instinto, e esse mandava-o sentir o fresco que vinha de dentro.
Seguiu-a em direcção ao fundo onde todos somos iguais, e, com o corpo ainda preso, libertou-se como nunca tinha conseguido.
terça-feira, 12 de maio de 2009
Começo
Da boca jorravam palavras vomitadas pela consciência aliviando a alma já de si perturbada pelo sol que chegava. Era manhã e a luz cegava até com os olhos postos no chão da floresta em que se fazia o caminho. O corpo implodia até ficar muito pequeno, de fora para dentro, a condensação tomava conta de nós. Nada importava quando se era apenas um ponto do espaço, um minúsculo ponto do espaço. Aos poucos tudo ficou a ser apenas a mesma coisa, a mesma coisa calma e quieta de sossego conquistado. Foi então que os deuses acordaram e a explosão dos corpos tomou conta do espaço: BUMMM!!! ouviu-se dentro de tudo, porque mais nada existia. Foi assim, mais ou menos assim, que tudo começou a fazer pouco sentido.
terça-feira, 24 de março de 2009
Retomar o ritmo
Há dias assim. Tudo começa com um levantar de folha pelo vento e, depois, a vida fica transformada, para nunca mais ser a mesma.
Era já hora de comer, sol a pique no céu, esbarrando contra tudo com uma violência quase audível. Cá em baixo, rente ao chão, está de corpo deitado e consciência a voar, quase se pode dizer que o conjunto flutua. Quase não, flutua!
A viagem não é das mais longas, serviu apenas para retomar o ritmo de se sentir vivo. Enfim, um esticar de pernas enferrujadas pela violência do dia-a-dia que teima em se manter igual.
Foi já no regresso que se deu a percepção que, tal como todas as boas percepções, se vai manter pela vida fora: A dor era fininha, tipo agulha a espetar, começou nos pés, nos dois exactamente ao mesmo tempo, e alastrou por si a cima como se fossem formigas, daquelas vermelhas tipo assassinas.
O mal está em parar as viagens… Faz doer os pés…
Neste preciso momento está a descer uma montanha, que ele próprio construiu, só para ver como é ela ao longe. Mais tarde há-de escala-la para ver as pegadas que deixou ao subir.
Tudo isto enquanto flutua!
Só se pára para comer!
Era já hora de comer, sol a pique no céu, esbarrando contra tudo com uma violência quase audível. Cá em baixo, rente ao chão, está de corpo deitado e consciência a voar, quase se pode dizer que o conjunto flutua. Quase não, flutua!
A viagem não é das mais longas, serviu apenas para retomar o ritmo de se sentir vivo. Enfim, um esticar de pernas enferrujadas pela violência do dia-a-dia que teima em se manter igual.
Foi já no regresso que se deu a percepção que, tal como todas as boas percepções, se vai manter pela vida fora: A dor era fininha, tipo agulha a espetar, começou nos pés, nos dois exactamente ao mesmo tempo, e alastrou por si a cima como se fossem formigas, daquelas vermelhas tipo assassinas.
O mal está em parar as viagens… Faz doer os pés…
Neste preciso momento está a descer uma montanha, que ele próprio construiu, só para ver como é ela ao longe. Mais tarde há-de escala-la para ver as pegadas que deixou ao subir.
Tudo isto enquanto flutua!
Só se pára para comer!
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Vida
No suspiro do que se é
Ouvem-se tocar trompetes,
Chegou a hora de voltar à toca
Ser-se bicho que rasteja
Distantes os prados verdes e a fonte
Fonte pura de si mesma
Incorrompido néctar de alma
Aproxima-se a exumação do espírito
É tempo de descer à vida!
Ouvem-se tocar trompetes,
Chegou a hora de voltar à toca
Ser-se bicho que rasteja
Distantes os prados verdes e a fonte
Fonte pura de si mesma
Incorrompido néctar de alma
Aproxima-se a exumação do espírito
É tempo de descer à vida!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Fica por explicar
É frágil a linha que me separa de ti e do resto do mundo
Quase tão frágil como a linha que separa, no horizonte de tudo, o céu e a terra
Existe um ponto em que existimos em comum
Somos em comum
Logo depois tudo se transforma no pranto das imagens, visíveis
Fica por explicar quase tudo. E isso não tem preço!
Quase tão frágil como a linha que separa, no horizonte de tudo, o céu e a terra
Existe um ponto em que existimos em comum
Somos em comum
Logo depois tudo se transforma no pranto das imagens, visíveis
Fica por explicar quase tudo. E isso não tem preço!
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Bolota improvável
Sentado à sombra que a árvore fazia enquanto olhava para a linha que dividia o céu do resto do mundo visível, caiu-lhe no ombro uma bolota.
O cair não tinha sido voluntário, como o de uma coisa que cai de madura ou uma pessoa que se acaba, pelo menos para si própria, por se ter acabado o tempo.
Foi um pássaro que a levou a sofrer a gravidade, tomando o sentido do centro da terra. Não fosse ter batido no já referido ombro e, à parte também a existência de chão, aquele pequeno fruto, cheio de vida, ainda que em potência, tinha atingido o centro do mundo. Talvez até acabasse com ele… Nunca saberemos.
Não ficou perturbado. À semelhança do costume, seu pelo menos, aproveitou o incidente para pensar no Universo e extrapolou todas as leis da física a partir daquela inocente bolota.
Tivesse esta bolota consciência e talvez ficasse magoada com tanta atenção e responsabilidade, impostas por tão simples e involuntário acto: cair por causa de um pássaro com fome.
Chegou àquela parte da equação em que se pergunta se a bolota tem alma.
Parou.
Esquecendo por completo a alma das bolotas, voltou a olhar para longe de si.
Foi então que reparou que, por mais longe que tentasse ver, nunca deixava de ver o seu nariz, diga-se, para esclarecer quem não o conhece, um farto nariz, de apurado sentido, com abas largas que se abrem quando chega a hora de saber de que é a sopa trazida por quem a sabe fazer, que não será ele, com toda a certeza.
Facto que o passou a atormentar. Não saber fazer sopa resolve-se, podemos sempre aprender com alguém que saiba, perguntar, ou ir tentando até se acertar… Ter o próprio nariz, sempre ( ! ), no campo de visão é que, de tão complicado, não se resolve.
Foi então que tomou uma decisão improvável. Cheirou a paisagem. A bolota assistia a tudo fazendo-se de adormecida nas ervas secas em que tinha caído. O pássaro já se tinha ausentado, coisas da vida, e a árvore lá estava , bem agarrada ao chão garantindo apoio às costas do que cheirava o mundo enquanto imaginava o que lá poderia estar se não fosse o seu nariz.
O cair não tinha sido voluntário, como o de uma coisa que cai de madura ou uma pessoa que se acaba, pelo menos para si própria, por se ter acabado o tempo.
Foi um pássaro que a levou a sofrer a gravidade, tomando o sentido do centro da terra. Não fosse ter batido no já referido ombro e, à parte também a existência de chão, aquele pequeno fruto, cheio de vida, ainda que em potência, tinha atingido o centro do mundo. Talvez até acabasse com ele… Nunca saberemos.
Não ficou perturbado. À semelhança do costume, seu pelo menos, aproveitou o incidente para pensar no Universo e extrapolou todas as leis da física a partir daquela inocente bolota.
Tivesse esta bolota consciência e talvez ficasse magoada com tanta atenção e responsabilidade, impostas por tão simples e involuntário acto: cair por causa de um pássaro com fome.
Chegou àquela parte da equação em que se pergunta se a bolota tem alma.
Parou.
Esquecendo por completo a alma das bolotas, voltou a olhar para longe de si.
Foi então que reparou que, por mais longe que tentasse ver, nunca deixava de ver o seu nariz, diga-se, para esclarecer quem não o conhece, um farto nariz, de apurado sentido, com abas largas que se abrem quando chega a hora de saber de que é a sopa trazida por quem a sabe fazer, que não será ele, com toda a certeza.
Facto que o passou a atormentar. Não saber fazer sopa resolve-se, podemos sempre aprender com alguém que saiba, perguntar, ou ir tentando até se acertar… Ter o próprio nariz, sempre ( ! ), no campo de visão é que, de tão complicado, não se resolve.
Foi então que tomou uma decisão improvável. Cheirou a paisagem. A bolota assistia a tudo fazendo-se de adormecida nas ervas secas em que tinha caído. O pássaro já se tinha ausentado, coisas da vida, e a árvore lá estava , bem agarrada ao chão garantindo apoio às costas do que cheirava o mundo enquanto imaginava o que lá poderia estar se não fosse o seu nariz.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Nome
Perguntaram-lhe hoje o nome. Três vezes. Nome?!
“Existo encriptado
Cristal apurado do que penso
Bebo tudo só de um trago e adormeço”
Seguiu a sua viagem. Estrada de terra e ervas daninhas muito verdes.
O rio repousava ao fundo.
“Existo encriptado
Cristal apurado do que penso
Bebo tudo só de um trago e adormeço”
Seguiu a sua viagem. Estrada de terra e ervas daninhas muito verdes.
O rio repousava ao fundo.
sábado, 16 de agosto de 2008
Cidade
A cidade já está farta de tudo.
Farta de cheia, de si, da merda de pássaro, das pessoas que passam inertes, embebidas no frio de consciência e dos corpos.
É a consciência colectiva a progredir no caminho que já adivinhavam os Deuses quando criaram tudo, conscientes de si e do resto, fartos de cheios, de si, da merda dos pássaros, dos momentos que passam inertes, embebidos no frio da consciência e dos corpos.
Farta de cheia, de si, da merda de pássaro, das pessoas que passam inertes, embebidas no frio de consciência e dos corpos.
É a consciência colectiva a progredir no caminho que já adivinhavam os Deuses quando criaram tudo, conscientes de si e do resto, fartos de cheios, de si, da merda dos pássaros, dos momentos que passam inertes, embebidos no frio da consciência e dos corpos.
sábado, 5 de julho de 2008
Mais ou menos zero
O tempo ia passando, como se nada fosse. Como se isso não significasse um início de fim, como se não tivesse mesmo nenhuma importância…
Com o parar da idade vamos aprendendo, disse ele, enquanto somava para logo depois subtrair, no papel quadriculado que tinha à frente, tudo o que de tão insignificante não poderia nunca ter valor ( para ninguém! ).
O tempo continuava a passar, como se não fosse nada.
Já fiz as contas: o resultado é zero, mais ou menos zero, não sei bem, tenho dúvidas, talvez deva repetir isto noutra altura, pensou ele sem coragem de o dizer.
O tempo ainda passava quando acordou para tudo.
Porque estás mais velho meu caro amigo, perguntou ao cão.
Com o parar da idade vamos aprendendo, disse ele, enquanto somava para logo depois subtrair, no papel quadriculado que tinha à frente, tudo o que de tão insignificante não poderia nunca ter valor ( para ninguém! ).
O tempo continuava a passar, como se não fosse nada.
Já fiz as contas: o resultado é zero, mais ou menos zero, não sei bem, tenho dúvidas, talvez deva repetir isto noutra altura, pensou ele sem coragem de o dizer.
O tempo ainda passava quando acordou para tudo.
Porque estás mais velho meu caro amigo, perguntou ao cão.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Lá fora tudo igual
É mais ou menos meio-dia de um dia qualquer.
Tudo parece pacífico na casa que habita.
O rafeiro dorme no tapete da sala, a televisão está desligada, entra uma luz aconchegante de início de Verão. Adivinha-se uma tarde calma e quente. Não fosse o vizinho de cima estar a ouvir baladas dos anos 80 e apenas o silêncio possível se escutaria.
Resolve ir ler a paisagem para a varanda enquanto ouve o estalar do gelo no copo de whisky velho.
Lá fora tudo igual. A estrada de alcatrão ainda passa em frente ao prédio, as poucas árvores que existem não cresceram nada que se visse e a planície lá continua, já a acusar o amarelo e o vermelho impostos pelo calor das últimas semanas.
Resolve sentar-se na cadeira de plástico, que tem ao lado do vazo com a planta que não sabe o nome e se esquece, quase sempre, de regar. Hoje está murcha. As folhas começam a ficar castanhas nas pontas, o caule está um bocado torto e a terra em que está plantada parece seca de mais para suportar qualquer forma de vida. Vou regala mais logo, pensa, sabendo que o mais certo e esquecer-se.
É estranha a ausência de pessoas na rua, normalmente passa gente por aqui, mesmo ao início da tarde de domingo.
Saboreia um gole do néctar, arrefecido pela pedra de gelo, e observa o copo de vidro grosso já riscado.
A vizinha do terceiro esquerdo sai do prédio, com a dificuldade em andar típica de quem oitenta e tal e falta de paciência para correr. O “bom dia” surge-lhe com naturalidade, da mesma forma que o sorriso da vida resolvida lhe rasga o rosto enrugado.
Como vai a senhora, pergunta-se. Devagar menino, devagar…responde-se. Pois a mim parece-me que vai muito bem! E um sorriso, também resolvido, é devolvido.
A vizinha afasta-se lenta e decidida.
Mais um gole. Outro. Volta à memória a planta. Decide não adiar e rega-a. Enquanto o faz, um sentimento agradável toma conta de si, como se estivesse a fazer um bem imenso à Humanidade ao tomar conta daquele pequeno ser.
O calor aperta e volta para a sala. Baixa os estores até meio, deixando a luz entrar, e deita-se no velho sofá de cabedal castanho. O cheiro a pele do sofá recorda-lhe a infância toda enquanto o adormece tranquilo.
A tarde já vai a meio quando acorda. O copo caiu, em cima da alcatifa. Não se preocupa. Afinal está calor e aquilo é basicamente água e álcool, acabará por evaporar.
Recorda mal o sonho, sabe que nele entravam pessoas queridas e pouco mais. Nada de violento ou extremamente agradável que conseguisse recordar. Era ao ar livre, tipo um piquenique, havia água, talvez um pequeno lago com juncos…
Pega no copo caído na alcatifa, coloca-o em cima da pequena mesa da sala e vai à casa de banho. Enquanto lava a cara e tira as remelas que acusam o tempo dormido, nota-se mais velho, ligeiramente mais velho do que da última vez que reparou em si desta forma.
Decide sair de casa e nunca mais voltar. Seguir sem rumo, com a mala às costas e aproveitar tudo o mereça ser aproveitado: paisagens, fruta selvagem, plantas, conversas, ideias… Enfim, sente que nada o prende a este lugar e que quer mesmo partir. Faz a mala, atrela o cão e parte, só porque sim.
É já meia-noite quando regressa. Afinal isto das viagens não é assim tão bom, pensa. Faz frio quando não se dorme em casa e esqueci-me da minha almofada.
Tudo parece pacífico na casa que habita.
O rafeiro dorme no tapete da sala, a televisão está desligada, entra uma luz aconchegante de início de Verão. Adivinha-se uma tarde calma e quente. Não fosse o vizinho de cima estar a ouvir baladas dos anos 80 e apenas o silêncio possível se escutaria.
Resolve ir ler a paisagem para a varanda enquanto ouve o estalar do gelo no copo de whisky velho.
Lá fora tudo igual. A estrada de alcatrão ainda passa em frente ao prédio, as poucas árvores que existem não cresceram nada que se visse e a planície lá continua, já a acusar o amarelo e o vermelho impostos pelo calor das últimas semanas.
Resolve sentar-se na cadeira de plástico, que tem ao lado do vazo com a planta que não sabe o nome e se esquece, quase sempre, de regar. Hoje está murcha. As folhas começam a ficar castanhas nas pontas, o caule está um bocado torto e a terra em que está plantada parece seca de mais para suportar qualquer forma de vida. Vou regala mais logo, pensa, sabendo que o mais certo e esquecer-se.
É estranha a ausência de pessoas na rua, normalmente passa gente por aqui, mesmo ao início da tarde de domingo.
Saboreia um gole do néctar, arrefecido pela pedra de gelo, e observa o copo de vidro grosso já riscado.
A vizinha do terceiro esquerdo sai do prédio, com a dificuldade em andar típica de quem oitenta e tal e falta de paciência para correr. O “bom dia” surge-lhe com naturalidade, da mesma forma que o sorriso da vida resolvida lhe rasga o rosto enrugado.
Como vai a senhora, pergunta-se. Devagar menino, devagar…responde-se. Pois a mim parece-me que vai muito bem! E um sorriso, também resolvido, é devolvido.
A vizinha afasta-se lenta e decidida.
Mais um gole. Outro. Volta à memória a planta. Decide não adiar e rega-a. Enquanto o faz, um sentimento agradável toma conta de si, como se estivesse a fazer um bem imenso à Humanidade ao tomar conta daquele pequeno ser.
O calor aperta e volta para a sala. Baixa os estores até meio, deixando a luz entrar, e deita-se no velho sofá de cabedal castanho. O cheiro a pele do sofá recorda-lhe a infância toda enquanto o adormece tranquilo.
A tarde já vai a meio quando acorda. O copo caiu, em cima da alcatifa. Não se preocupa. Afinal está calor e aquilo é basicamente água e álcool, acabará por evaporar.
Recorda mal o sonho, sabe que nele entravam pessoas queridas e pouco mais. Nada de violento ou extremamente agradável que conseguisse recordar. Era ao ar livre, tipo um piquenique, havia água, talvez um pequeno lago com juncos…
Pega no copo caído na alcatifa, coloca-o em cima da pequena mesa da sala e vai à casa de banho. Enquanto lava a cara e tira as remelas que acusam o tempo dormido, nota-se mais velho, ligeiramente mais velho do que da última vez que reparou em si desta forma.
Decide sair de casa e nunca mais voltar. Seguir sem rumo, com a mala às costas e aproveitar tudo o mereça ser aproveitado: paisagens, fruta selvagem, plantas, conversas, ideias… Enfim, sente que nada o prende a este lugar e que quer mesmo partir. Faz a mala, atrela o cão e parte, só porque sim.
É já meia-noite quando regressa. Afinal isto das viagens não é assim tão bom, pensa. Faz frio quando não se dorme em casa e esqueci-me da minha almofada.
quinta-feira, 27 de março de 2008
O dia nasce
Finalmente o dia nasce
Ouve-se, ao fundo, a respiração ofegante
Afastam-se os fantasmas da noite mal dormida
Aprecia-se a luz que tranquiliza os males todos
Instalam-se as olheiras típicas
Segue-se o caminho que não estava traçado
A caminho da casa da infância
Começa a cefaleia do que foi
Persiste o inchaço da vista
Agora o Sol domina tudo
Adormeço fantasma de mim
Ouve-se, ao fundo, a respiração ofegante
Afastam-se os fantasmas da noite mal dormida
Aprecia-se a luz que tranquiliza os males todos
Instalam-se as olheiras típicas
Segue-se o caminho que não estava traçado
A caminho da casa da infância
Começa a cefaleia do que foi
Persiste o inchaço da vista
Agora o Sol domina tudo
Adormeço fantasma de mim
quinta-feira, 13 de março de 2008
Miopia
Perco-me em paisagens que crio e destruo
Tudo para me distrair daquilo que não sou e me afecta
Aconteço sem ser eu e isso perturba a visão
Deixo-me absorver pelas saídas de emergência
Caminho pelas calçadas da existência
Perco-me nos atalhos que julguei conhecer
Afundo o barco onde vou só para poder sair
Enquanto isto, sinto-me vivo: é a aflição da falta de vida
Acelera-se o passo
Impossível ( ! )
Não posso escapar de mim
Tudo para me distrair daquilo que não sou e me afecta
Aconteço sem ser eu e isso perturba a visão
Deixo-me absorver pelas saídas de emergência
Caminho pelas calçadas da existência
Perco-me nos atalhos que julguei conhecer
Afundo o barco onde vou só para poder sair
Enquanto isto, sinto-me vivo: é a aflição da falta de vida
Acelera-se o passo
Impossível ( ! )
Não posso escapar de mim
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Viagem de quem vai ficando
E tudo se transformou
A explosão não fez mortos, diziam na rádio, enquanto se preparava para sair.
Só feridos graves e ligeiros, grandes feridas abertas nos corpos e nas almas de quem assistiu ao propagar das chamas.
Tomou depois o café na mesa da cozinha e comeu uma torrada com doce.
Enquanto seguia, no autocarro de sempre, observava um homem, velho, a olhar a paisagem cinzenta como se fossem flores vermelhas. Era evidente a sua vontade de sair dali, tal como era evidente a sua falta de coragem para o fazer. Todos os dias desde que mudara para aquele prédio o via: a mesma cara, no mesmo lugar, o mesmo olhar, cheio de vazio…
Chegou ao destino.
PAUSA.
De regresso a casa, para junto de quem estava à espera, não encontrou o homem velho do costume. O lugar tinha ficado vago. Na esperança de perceber o que ia na alma do homem velho, decidiu sentar-se no banco dele e olhar pela mesma janela.
A mesma paisagem, a mesma cor, sensações diferentes…
Tudo tinha mudado. O homem velho tinha-se libertado de tudo, até do lugar no autocarro.
Agora aquela prisão era sua…
No telejornal repetiu-se a história de explosão. O Benfica tinha empatado. O ministro não caiu. As guerras eram as mesmas. O homem velho tinha sido visto a voar, com asas grandes e plenas, em direcção ao sul.
A explosão não fez mortos, diziam na rádio, enquanto se preparava para sair.
Só feridos graves e ligeiros, grandes feridas abertas nos corpos e nas almas de quem assistiu ao propagar das chamas.
Tomou depois o café na mesa da cozinha e comeu uma torrada com doce.
Enquanto seguia, no autocarro de sempre, observava um homem, velho, a olhar a paisagem cinzenta como se fossem flores vermelhas. Era evidente a sua vontade de sair dali, tal como era evidente a sua falta de coragem para o fazer. Todos os dias desde que mudara para aquele prédio o via: a mesma cara, no mesmo lugar, o mesmo olhar, cheio de vazio…
Chegou ao destino.
PAUSA.
De regresso a casa, para junto de quem estava à espera, não encontrou o homem velho do costume. O lugar tinha ficado vago. Na esperança de perceber o que ia na alma do homem velho, decidiu sentar-se no banco dele e olhar pela mesma janela.
A mesma paisagem, a mesma cor, sensações diferentes…
Tudo tinha mudado. O homem velho tinha-se libertado de tudo, até do lugar no autocarro.
Agora aquela prisão era sua…
No telejornal repetiu-se a história de explosão. O Benfica tinha empatado. O ministro não caiu. As guerras eram as mesmas. O homem velho tinha sido visto a voar, com asas grandes e plenas, em direcção ao sul.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
Andando
Enquanto se for andando, sem compromissos nem vontade de chegar a lado nenhum, podem ver-se as coisas mais pequenas com uma nitidez impossível de outra forma.
Isto das viagens tem os seus truques. Uns mais honestos e claros outros íntimos e insondáveis, até para quem os tem… No fundo disto tudo o que importa não é o rumo.
São as pedras e pó da estrada que dão sentido à viagem.
Quando se parte por nós, vasculha os recantos e viola a intimidade, tudo o que sobra é o que se foi vendo.
No fim só vão sobrar as viagens, melhor, as memórias das viagens. As fotografias que fomos tirando hão-de amarelecer e ficar desfocadas. Fica a sensação em forma de memória e tudo o resto não faz falta.
Isto das viagens tem os seus truques. Uns mais honestos e claros outros íntimos e insondáveis, até para quem os tem… No fundo disto tudo o que importa não é o rumo.
São as pedras e pó da estrada que dão sentido à viagem.
Quando se parte por nós, vasculha os recantos e viola a intimidade, tudo o que sobra é o que se foi vendo.
No fim só vão sobrar as viagens, melhor, as memórias das viagens. As fotografias que fomos tirando hão-de amarelecer e ficar desfocadas. Fica a sensação em forma de memória e tudo o resto não faz falta.
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