quinta-feira, 26 de julho de 2007

Ritmo

Tudo se começa a manifestar
O dia cresce em si e para fora
O ritmo é alucinante

Tudo se começa a manifestar
Sai de mim (em mim mas para fora)
Não faz sentido este ritmo

Tudo se começa a manifestar
Parou a pureza de mim e de fora
O coração bate e bate e bate e bate e bate…

domingo, 17 de junho de 2007

Pausa

Pauso as voltas que a Terra dá,
Involuntária
Olho a imagem parada que os olhos fixam,
Atentos
Desato o nó aos sapatos,
Dolorosos
Piso o chão com alívio impossível

O momento pausado prolonga-se,
Ainda fixo em verdade
O tempo deixou de existir aqui,
Tudo é espaço e sensação

É o mundo de tudo o que não sou
Parado em calma sincera
Impossível só o não ser!

terça-feira, 22 de maio de 2007

Púrpura

Entram pela janela da frente os primeiros raios púrpura
Nem vermelho alaranjado ainda nem já ciano claro...
É a adolescência do resto da manhã isto que me afina o pensamento
Viro o olhar para a porta mais interior da casa onde moro,

Tudo mais claro agora.
Esta luz desmascara alguns cantos da divisão anexa,
Onde guardo os arquivos.
Páginas em código são reveladas
Novidades minhas que guardo só.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

O Processo

Tenho ouvido dizer que com o tempo vamos mudando. Ficamos mais fortes, resistentes e até mais sábios.

Discordo! O que me parece que acontece é que vamos criando carapaças e reforçando as que já existiam, enfim… Vamos acrescentando camadas e camadas de cimento à alma de forma a que fique invisível.

O problema é que não se torna só invisível… Fica indizível, indivisível, impalpável… No fim será mesmo improvável.

Não será todo este processo, o envelhecimento, um processo de estupidificação?

Serão estas carapaças e cimentos indispensáveis à existência ou podemos, de vez em quando, despi-las e por a alma a respirar ar puro?!

terça-feira, 15 de maio de 2007

Tiro os óculos

Tiro os óculos da cara, só para embaciar o mundo
Assim, vejo melhor o que está perto.
Melhor não, mais nítido, sem lentes.
A mesa em que escrevo apoia todo o meu peso
Sem queixumes nem gritos nem ânsias
Apoia o meu peso, só.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Gota a gota

A chuva miúda cai, breve, sobre os telhados. Os telhados são meus… de vidro. Não se pode dizer que se partem mas estão gastos, do gota a gota que sofrem.

Enquanto isto acontece, na cidade, no campo, na praia, tanto faz, tudo se transforma e fica mais pesado. É incongruente este ficar gasto… tudo o que se gasta fica mais leve, mais pesado nunca!

O que verdadeiramente pesa é o peso de existir e de se saber que se existe. Não é complicado é só pesado. Tudo passa a ser nosso e passamos a ser tudo.

Nas noites passadas entre mim e o outro, que às vezes pareço, lembro tudo o que fui e tudo o que quis ser, para, logo depois, deixar essas ideias ao abandono que sempre as caracterizou, apesar de profundas. Bem… o que será mais profundo que o abandono que oferecemos a nós próprios?

Depois de tudo isto é provável que venha a leveza. Não a da plenitude, antes a da falta dos telhados, que de gastos se partam em estilhaços múltiplos e se distribuam pelas diferentes salas da pesada existência.

terça-feira, 13 de março de 2007

Quase acção

Fecha-se a janela da percepção e a porta disso mesmo mantém-se aberta. Esta é uma das muitas maneiras de nos isolarmos de tudo o que é resto. O caminho de uma solidão voluntária para se chegar a algum lado que não seja só mais um. E a descoberta começa, já repetida em si mesma, mantendo, ainda assim, a novidade de ser sentida de novo.

O fechar da janela não costuma ser mais que deixar de ver os pássaros, carros, pessoas, árvores, casas, céu, rio. Enfim… tudo o que se pode ver de uma janela como as das casas das pessoas que têm casa com janela. ( A confusão só serve para confundir. )

O abrir a porta é deixar entrar tudo o que o deseje fazê-lo, sem a nossa intervenção, sem o manifestar desejo, como se faz quando vamos olhar pela janela, nem que seja para matar as horas.

Pode entrar tudo. Pode sair tudo. Perde-se a responsabilidade do acto, apenas porque não se actua: vê-se e interpreta-se, só!

Chama-se inércia activa, mata o desejo.