Há dias assim. Tudo começa com um levantar de folha pelo vento e, depois, a vida fica transformada, para nunca mais ser a mesma.
Era já hora de comer, sol a pique no céu, esbarrando contra tudo com uma violência quase audível. Cá em baixo, rente ao chão, está de corpo deitado e consciência a voar, quase se pode dizer que o conjunto flutua. Quase não, flutua!
A viagem não é das mais longas, serviu apenas para retomar o ritmo de se sentir vivo. Enfim, um esticar de pernas enferrujadas pela violência do dia-a-dia que teima em se manter igual.
Foi já no regresso que se deu a percepção que, tal como todas as boas percepções, se vai manter pela vida fora: A dor era fininha, tipo agulha a espetar, começou nos pés, nos dois exactamente ao mesmo tempo, e alastrou por si a cima como se fossem formigas, daquelas vermelhas tipo assassinas.
O mal está em parar as viagens… Faz doer os pés…
Neste preciso momento está a descer uma montanha, que ele próprio construiu, só para ver como é ela ao longe. Mais tarde há-de escala-la para ver as pegadas que deixou ao subir.
Tudo isto enquanto flutua!
Só se pára para comer!
terça-feira, 24 de março de 2009
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Vida
No suspiro do que se é
Ouvem-se tocar trompetes,
Chegou a hora de voltar à toca
Ser-se bicho que rasteja
Distantes os prados verdes e a fonte
Fonte pura de si mesma
Incorrompido néctar de alma
Aproxima-se a exumação do espírito
É tempo de descer à vida!
Ouvem-se tocar trompetes,
Chegou a hora de voltar à toca
Ser-se bicho que rasteja
Distantes os prados verdes e a fonte
Fonte pura de si mesma
Incorrompido néctar de alma
Aproxima-se a exumação do espírito
É tempo de descer à vida!
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Fica por explicar
É frágil a linha que me separa de ti e do resto do mundo
Quase tão frágil como a linha que separa, no horizonte de tudo, o céu e a terra
Existe um ponto em que existimos em comum
Somos em comum
Logo depois tudo se transforma no pranto das imagens, visíveis
Fica por explicar quase tudo. E isso não tem preço!
Quase tão frágil como a linha que separa, no horizonte de tudo, o céu e a terra
Existe um ponto em que existimos em comum
Somos em comum
Logo depois tudo se transforma no pranto das imagens, visíveis
Fica por explicar quase tudo. E isso não tem preço!
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Bolota improvável
Sentado à sombra que a árvore fazia enquanto olhava para a linha que dividia o céu do resto do mundo visível, caiu-lhe no ombro uma bolota.
O cair não tinha sido voluntário, como o de uma coisa que cai de madura ou uma pessoa que se acaba, pelo menos para si própria, por se ter acabado o tempo.
Foi um pássaro que a levou a sofrer a gravidade, tomando o sentido do centro da terra. Não fosse ter batido no já referido ombro e, à parte também a existência de chão, aquele pequeno fruto, cheio de vida, ainda que em potência, tinha atingido o centro do mundo. Talvez até acabasse com ele… Nunca saberemos.
Não ficou perturbado. À semelhança do costume, seu pelo menos, aproveitou o incidente para pensar no Universo e extrapolou todas as leis da física a partir daquela inocente bolota.
Tivesse esta bolota consciência e talvez ficasse magoada com tanta atenção e responsabilidade, impostas por tão simples e involuntário acto: cair por causa de um pássaro com fome.
Chegou àquela parte da equação em que se pergunta se a bolota tem alma.
Parou.
Esquecendo por completo a alma das bolotas, voltou a olhar para longe de si.
Foi então que reparou que, por mais longe que tentasse ver, nunca deixava de ver o seu nariz, diga-se, para esclarecer quem não o conhece, um farto nariz, de apurado sentido, com abas largas que se abrem quando chega a hora de saber de que é a sopa trazida por quem a sabe fazer, que não será ele, com toda a certeza.
Facto que o passou a atormentar. Não saber fazer sopa resolve-se, podemos sempre aprender com alguém que saiba, perguntar, ou ir tentando até se acertar… Ter o próprio nariz, sempre ( ! ), no campo de visão é que, de tão complicado, não se resolve.
Foi então que tomou uma decisão improvável. Cheirou a paisagem. A bolota assistia a tudo fazendo-se de adormecida nas ervas secas em que tinha caído. O pássaro já se tinha ausentado, coisas da vida, e a árvore lá estava , bem agarrada ao chão garantindo apoio às costas do que cheirava o mundo enquanto imaginava o que lá poderia estar se não fosse o seu nariz.
O cair não tinha sido voluntário, como o de uma coisa que cai de madura ou uma pessoa que se acaba, pelo menos para si própria, por se ter acabado o tempo.
Foi um pássaro que a levou a sofrer a gravidade, tomando o sentido do centro da terra. Não fosse ter batido no já referido ombro e, à parte também a existência de chão, aquele pequeno fruto, cheio de vida, ainda que em potência, tinha atingido o centro do mundo. Talvez até acabasse com ele… Nunca saberemos.
Não ficou perturbado. À semelhança do costume, seu pelo menos, aproveitou o incidente para pensar no Universo e extrapolou todas as leis da física a partir daquela inocente bolota.
Tivesse esta bolota consciência e talvez ficasse magoada com tanta atenção e responsabilidade, impostas por tão simples e involuntário acto: cair por causa de um pássaro com fome.
Chegou àquela parte da equação em que se pergunta se a bolota tem alma.
Parou.
Esquecendo por completo a alma das bolotas, voltou a olhar para longe de si.
Foi então que reparou que, por mais longe que tentasse ver, nunca deixava de ver o seu nariz, diga-se, para esclarecer quem não o conhece, um farto nariz, de apurado sentido, com abas largas que se abrem quando chega a hora de saber de que é a sopa trazida por quem a sabe fazer, que não será ele, com toda a certeza.
Facto que o passou a atormentar. Não saber fazer sopa resolve-se, podemos sempre aprender com alguém que saiba, perguntar, ou ir tentando até se acertar… Ter o próprio nariz, sempre ( ! ), no campo de visão é que, de tão complicado, não se resolve.
Foi então que tomou uma decisão improvável. Cheirou a paisagem. A bolota assistia a tudo fazendo-se de adormecida nas ervas secas em que tinha caído. O pássaro já se tinha ausentado, coisas da vida, e a árvore lá estava , bem agarrada ao chão garantindo apoio às costas do que cheirava o mundo enquanto imaginava o que lá poderia estar se não fosse o seu nariz.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Nome
Perguntaram-lhe hoje o nome. Três vezes. Nome?!
“Existo encriptado
Cristal apurado do que penso
Bebo tudo só de um trago e adormeço”
Seguiu a sua viagem. Estrada de terra e ervas daninhas muito verdes.
O rio repousava ao fundo.
“Existo encriptado
Cristal apurado do que penso
Bebo tudo só de um trago e adormeço”
Seguiu a sua viagem. Estrada de terra e ervas daninhas muito verdes.
O rio repousava ao fundo.
sábado, 16 de agosto de 2008
Cidade
A cidade já está farta de tudo.
Farta de cheia, de si, da merda de pássaro, das pessoas que passam inertes, embebidas no frio de consciência e dos corpos.
É a consciência colectiva a progredir no caminho que já adivinhavam os Deuses quando criaram tudo, conscientes de si e do resto, fartos de cheios, de si, da merda dos pássaros, dos momentos que passam inertes, embebidos no frio da consciência e dos corpos.
Farta de cheia, de si, da merda de pássaro, das pessoas que passam inertes, embebidas no frio de consciência e dos corpos.
É a consciência colectiva a progredir no caminho que já adivinhavam os Deuses quando criaram tudo, conscientes de si e do resto, fartos de cheios, de si, da merda dos pássaros, dos momentos que passam inertes, embebidos no frio da consciência e dos corpos.
sábado, 5 de julho de 2008
Mais ou menos zero
O tempo ia passando, como se nada fosse. Como se isso não significasse um início de fim, como se não tivesse mesmo nenhuma importância…
Com o parar da idade vamos aprendendo, disse ele, enquanto somava para logo depois subtrair, no papel quadriculado que tinha à frente, tudo o que de tão insignificante não poderia nunca ter valor ( para ninguém! ).
O tempo continuava a passar, como se não fosse nada.
Já fiz as contas: o resultado é zero, mais ou menos zero, não sei bem, tenho dúvidas, talvez deva repetir isto noutra altura, pensou ele sem coragem de o dizer.
O tempo ainda passava quando acordou para tudo.
Porque estás mais velho meu caro amigo, perguntou ao cão.
Com o parar da idade vamos aprendendo, disse ele, enquanto somava para logo depois subtrair, no papel quadriculado que tinha à frente, tudo o que de tão insignificante não poderia nunca ter valor ( para ninguém! ).
O tempo continuava a passar, como se não fosse nada.
Já fiz as contas: o resultado é zero, mais ou menos zero, não sei bem, tenho dúvidas, talvez deva repetir isto noutra altura, pensou ele sem coragem de o dizer.
O tempo ainda passava quando acordou para tudo.
Porque estás mais velho meu caro amigo, perguntou ao cão.
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